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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Vaca veste verso

Eis aqui o teu meu-teco
(atenta-te, assim):

Ao meu lado há lugar vago;
Puxa então a tua cadeira
e senta junto a mim.


1 bj a Thiago Vasconcelos e à sua logo-mais maioridade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Amanhã é dia das bruxas

1 bj à Letícia Benetti, nascida em 30 de outubro, véspera do dia das bruxas.

Amanhã é dia das bruxas.
Chapéu pontudo e gargalhada
E verruga no nariz
Perda, Dúvida, Mentira e suas amigas
Virão voando, seres vis!
Surgirão sem prévio aviso
Num rasante veloz de vazio

Amanhã a bruxa é solta.
Mas hoje é dia lindo
É dia de riso largo e riso solto
Que se ouve logo cá, logo ali e logo lá
Dia querido, florido
de amor e amigo!
Onde está Deus?
Onde está Arte?
Esse dia é inteiro em cada parte
Hoje é momento que cativa
É dia de deus morto e arte viva!

Amanhã tem bruxaria.
Mas hoje o dia é forte.
Não é meu, não é seu;
É do mundo! Oi, mundo!
Pois hoje é sempre certeza,
amanhã é sempre talvez.
Oh Bruxas! Vocês aqui não têm vez!

Amanhã as bruxas vêm,
mas bem sei que logo vão.
Pobre amanhã!
Nada é páreo para tal véspera!

Meu tão querido hoje,
saiba que perdura.
Amanhece e enlouquece,
emudece noite escura.

Amanhã é dias das bruxas.
Não mais me aflijo; estou preparada e muito bem acompanhada.
Perda, Dúvida, Mentira e suas amigas!
QUE VENHAM!

domingo, 17 de outubro de 2010

Do(a)

Querido, querida. Se uso, é porque te quero.
Que-ri-do. Ou da.
Querer estranho esse meu; se quero, quero que vá e não preciso que volte. Quero quando quero, sem quereres quitados, sem custo-benefício. Quociente de querer que se assume só.
Querido, querida. Se ouves, querido, ou da, guarda bem: tens um teco de mim.

Querido, querida. São as palavras mais bonitas!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Evidentia

Os muito sensatos que me perdoem, mas loucura é fundamental.

Numa daquelas conversas sobre orgasmos artísticos, com minha amiga e esposa Amanda Guedes, que passeiam por Strokes, Vinicius de Moraes, Beirut e por nós mesmas (por que não?), veio à pauta uma mulher digna de nota.

Francesa, 45 anos, bailarina. Existe aquela ideia de que carreira de bailarino clássico dura pouco; é até verdade. De que aos 45 anos já se deve estar aposentado ou dando aulas aos seus sucessores. Mas isso não é nem de longe, ou de muito longe, aplicável à mulher de corpo magro, esguio, ágil, flexível, expressivo e de controle e possibilidades impressionantes.

Da primeira vez que tive contato com seu trabalho, confesso que não o compreendi muito bem; ele permaneceu algo vago e misterioso. Percebi, porém, que era profundo, profundo demais para que eu pudesse traduzi-lo. Resultou em frustração, porque sabia que dali muito se podia tirar. Intrigante.
Era bem mais do que se via. Ou era simplesmente o que se via.
Espantoso, hipnótico.

E, há um ano, foi com esse discurso, num inglês afrancesado que transcrevi com certa dificuldade, que me atingiram suas palavras pela primeira vez:

“Acho que você precisa ser louco para ir para o palco, sério, porque... todos os loucos são completamente normais, eu não sei. Talvez as pessoas de fora que são loucas. Não ser louco evita muita... liberdade. Duas pessoas realmente loucas conversando uma com a outra, quero dizer, mesmo que elas falem línguas diferentes, se compreendem."

Tal efeito o do trabalho, tal efeito o do discurso.
Um ano se passou, minhas atenções foram pra outros cantos, e acabou que me lembrei dela: fui ouvir novamente suas palavras e assistir à sua arte outra vez. Desta vez, busquei algo mais; não ficaria apenas com o aperitivo.

“Tem a ver com amor, tem a ver com paixão, e a maioria dos profissionais se esquece disso.”

Então, ela faz arte, e a faz com amor? Como se reúne e faz-se compreender e definir as duas coisas mais incompreensíveis e indefiníveis? Loucura.

“Para dar, produzir emoção você tem sempre que ser duvidoso sobre o que faz, sobre o que fará e o que fez também, porque duvidar e arriscar cria um momento de urgência para encontra emoção real. (...) se você prepara muito, se você pensa muito sobre, todo o instinto, tudo de si mesmo (...) se esconderá em algum lugar, atrás da coreografia, atrás de todo esse tipo de coisa. Mas, se você duvida, você realmente coloca-se nu.
(...)

É importante temer ir ao palco, do contrário (...) você sabe exatamente o que funciona, o que não funciona, o quanto você tem que dar; fica fácil de fazer. Isso é arte, (...) cada vez que você dá um passo para o palco, é importante saber que isso é perigoso, que você tem que encontrar uma maneira de ir mais para dentro de si, mais profundamente a cada vez, pra encontrar e saber se você é capaz de dar mais; se você TEM mais em si.

(...)

Sinto muito prazer brincando com meu corpo e meus pés e minhas pernas e minhas costas, e pode até ser divertido... há tantas possibilidades para descobrir novos, bem, movimentos e expressões de si mesmo, e essa técnica pode também ser muito recompensadora.”

Ela é louca.

Mostrei esses dizeres para Amanda, que é também amiga de arte, de amor e de filosofia; logo em seguida, estávamos recitando declarações de amor para a tal bailarina pirada, felizes por não falarmos francês, mas ainda assim falarmos a língua de uma francesa em especial.

Sabe, isso tudo não é aplicável apenas à dança, tampouco apenas à arte. Quero fazer deste texto um convite e um incentivo pra que ninguém tenha mais medo de olhar para dentro de si mesmo e descobrir e explorar o que raios jaz por ali. Não se preocupe; por mais espantoso que seja, por mais doentio que pareça, por mais sem sentido que soe, por mais louco que aparente, calma! É apenas você. Ponha-se nu.

As possibilidades não são poucas.

Aja duas vezes antes de pensar. Planos são uma merda. Ideias de nada valem se a ação não corresponde.
Fique louco.

Confesso que eu mesma encontro obstáculos para seguir tudo o que nos disse a artista em questão (tenho problemas com planos...), mas tento. E, mesmo que eu tenha amadurecido e me explorado um pouco mais, ela continua sendo espantosa, hipnótica e intrigante. Talvez eu não seja louca o suficiente – ainda.

Pessoalmente, as tais coisas indefiníveis e incompreensíveis me ganharam nova cara, nova luz. Que amor, arte e loucura sejam intrínsecos; que o medo e o receio fiquem longe; que a sinceridade, o autoconhecimento, a liberdade, a emoção, a razão e as possibilidades sejam consequência.

Para todos!

1 bj admirado e agradecido à SYLVIE GUILLEM.

"Vie et danse. Life et, and dance. Evidentia." (Vida e dança)


Evidentia é um documentário feito por Sylvie em 1995, iniciado pela frase “Movement is life” (Movimento é vida). Tem 5 partes principais, mas a que escolho pôr aqui, embora recomende todas elas, é a parte 3 de Smoke. Pirem! (A parte que mais me agrada e arrepia é quando ela tira uma carta da boca, a lê, deixa cair e se olha no espelho.)



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

(vazio)

Tudo o que eu seria e não fui
Todo o sim que eu fiz não
Todo o certo que eu fiz dúvida
Presente feito passado
Passado pesado
Passado pecado
Passado que pego e jogo fora
Feito lixo, aos seus montes
E já que deixou os resquícios da amarga indiferença
Vácuo amargo
Decomponha-se
Longe
Daqui.

(Sem bjs. 11/setembro/2010)

domingo, 12 de setembro de 2010

Frenesi

Ela ainda estava ofegante, assim como eu. Frenesi elétrico, eletricidade frenética. Seu corpo estirado na cama, e um espectador assíduo sentado ao lado dele.
Sua unhas vermelhas, que há pouco feriam minhas costas, caminhavam por sua própria pele, branca e perfeita. Destacavam-se como gotas de sangue que escorrem pela folha em branco.
E o par de olhos castanho-escuros sorria com malícia, me deixando intrigado, brotando um zumbido em meu cérebro; tal era o efeito de todo seu gesto. Indaguei o que se passava por trás daqueles olhos eloquentes. "Nada", ela respondeu, sem usar a voz, apenas sacudindo a cabeça. Seu olhar passeou por mim. Examinou cada centímetro do meu corpo nu, como se um dia fosse capaz de conhecê-lo tanto quanto eu conhecia o dela. Cada centímetro - milímetro - de sua carne estava memorizado em minha mente, através do meu tato, olfato, visão, audição e paladar, e mais os sexto, sétimo e oitavo sentidos que pareciam aflorar a todo o momento em que eu a tinha, e ela a mim.
Embolei meus dedos no mar de cabelos da cor de seus olhos, ondulados, compridos, infinitos. Viajei como um veleiro por um mar estendido pelo travesseiro macio, almejando o momento em que pudesse mergulhar nele e buscar todo o mistério que ele guardava, e puxá-lo para mim num momento de tempestade, de fúria...
Meu dedo indicador acariciou a lateral de seu tronco, nas costelas, lhe causando um arrepio gracioso, que a fez se contorcer e dar um sorrisinho abafado e lindo. Não me deixou outra opção senão sorrir também, diante de um rosto tão puro e inocente.
Mas então chegou o momento em que comecei a perder a razão. Era como o início de uma noite etílica, em que a mente é lúcida e os atos não. Sua mão quente, com cinco gotas de sangue, embalou minha nuca e afagou meus cabelos já arrepiados. Olhar inquisidor. Um suspiro. Ergueu-se e colou sua boca na minha. Sua língua brincou com a minha. Puxou meu cabelo com força.
Me deitei sobre ela novamente, sentindo o início da eletricidade começando a circular. Cheguei ao pescoço: cheiro de mar, cheiro de sangue, cheiro de folha em branco.
E como um velejador solitário, molhei a ponta da pena com sangue e arranquei a folha em branco do caderno. Tornei-me o poeta dos poetas, e despejei em minhas palavras toda a minha loucura.



(Muitos bjs.)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Escarlate

Hoje, eu, Giulia Confuorto de Castro, numa segunda feira, dia 16 de agosto de 2010, estendi meus braços ao céu e conversei com Deus.
Mostrei para o alto meus dedos médios encimados por unhas escarlate e disse "Aqui!, seu filho da puta, você não existe porra nenhuma, vai tomar no seu cu!".
E hoje, apenas, nessa tarde fria pra caralho de agosto, concluí, fatídica e indubitavelmente, que a vida não é justa.
Ah, vá.
Que um cara gente boa que ajuda os pobres, oprimidos, negrinhos e missionários (créditos Chaves - entendeu ou não, foda-se) não existe, eu já sabia. Mas deixar de crer nisso foi tão espontâneo e desenrolou-se tão continuamente, digo, de maneira lenta, ininterrupta e gradual, que nunca me causou raiva ou tristeza ou qualquer sensação ruim. Nunca tinha mandado deus tomar no cu, muito menos pessoas que ainda acreditam - eu as respeito do mesmo jeito que queria ser respeitada.
Não é preciso falar que a raiva só apareceu - e explodiu - hoje porque algo injusto aconteceu com a pessoa que vos fala. Pois é, ficamos abismados quando acontece com os outros, mas puto de verdade, só quando é com a gente. Homem é um bicho muito egoísta, não?
Sem cu doces e resumindo, meu emputecimento veio de algo que me fez concluir que princípios bons - bons na minha ótica - não valem nada uma vez que bonzinhos e mauzinhos, todos nós, estamos suscetíveis ao ato de se foder.

Aquele que devia reconhecer as boas ações não o faz. Falo dos homens.
Aquele que devia recompensar as boas ações não existe. Falo de deus.
E agora, José?

Bem, há pessoas que não têm o que comer, nem onde morar, nem têm acesso ao conhecimento e nem alguém que as ame e a quem possam amar. Vá à merda com qualquer teoria divina que justifique isso. Na boa, pau no seu cu.

A justiça tarda, mas não falha?
A justiça tarda e falha.
A justiça que tarda já falhou.

Pra quem quiser saber, fui mal educadinha com a pessoa errada. Estava com raiva da minha situação e da omissão de reconhecimento aos meus atos.
Porque, afinal, não dá pra ter raiva de deus. Ninguém tem culpa de não existir.
Até aqui, meu discurso soou pessimista e estoico, mas, em minha defesa, só digo que eu acredito no amor. Poderia escrever um longo texto sobre ele, mas não é preciso. Ele existe. E vai pra ele o meu bj hoje.
Hoje e sempre.