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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

As Borboletas Amarelas de Mauricio Babilonia

Você disse que quase ouvia
ouvia as valsas
as Valsas Tristes de Pietro Crespi.
Aí quase vi
vi as borboletas
as Borboletas Amarelas de Mauricio Babilonia
que, no seu rastro,
de tão perto e de tão suas,
vêm me cantar sussurros ternários
das suas verdades e mentiras
das suas coisas que mal sei.

(As borboletas não são
seus sussurros não são
além do quase
quase nuvem
de fascínio amarela;
te perseguem incessantes.
E eu não sou
além do quase
quase tudo e qualquer coisa,
não sou além do olhar atento
a persegui-las à distância
em silêncio.)

_______

1 bj às "Sad Waltzes of Pietro Crespi" e 2 às estirpes condenadas a cem anos de solidão.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Babacas

Por que as pessoas não conversam? É a enésima vez que me pergunto isso e poderia estar questionando em voz alta para pelo menos uminha das sete – agora oito – pessoas – nove – que estão comigo nessa sala de cinema silenciosa, quase nada iluminada e perfeita para um papo. Esperamos Melancolia começar.
É curioso como essa novidade de cadeiras numeradas dá uma disposição estranha aos espectadores: pois, veja bem, duplas e trios de desconhecidos são forçados, pelo mero acaso da escolha quase às escuras dos assentos, a se sentar lado a lado; e nem a força mágica da batalha naval das poltronas de cinema nos faz conversar (uma jovem acaba de se sentar na F2, ao lado do moçoilo da F3, que muito bem poderia ser H4 ou H6. Eu havia atirado na H5: água! Aproveita então, moça, e conversa!).
Por que as pessoas não conversam? É um mistério deveras. Ninguém tem o que fazer enquanto o filme não começa e, entre nós, não há distância maior que algumas poltronas. Falamos a mesma língua, moramos na mesma cidade, provavelmente há um gosto parecido para cinema; logo, podemos discorrer horas a fio sobre novos acordos ortográficos, normas gramaticais, menas e seje; o metrô, os carros, a crackolândia, as fábricas, a poluição, cof cof cof, e os impostos; Fellini, Trouffaut, Almodóvar, Woody Allen e Pânico 4; ah, quanta coisa!, podemos viajar desde o mundo da música clássica até sabores de geleia, e depois voltar aos acordos ortográficos, porque era “geléia” e, quando leio agora, eu penso em “gelêia”, você não?, pois eu sim. Podemos falar também sobre cuecas de algodão, se preferir, ou touradas espanholas ou quem sabe o dólar e a Bovespa, eu não entendo muito disso, não, viu, mas juro que faço um esforcinho. Só não falo de religião, porque eu falo do meu pacto com o vermelhinho e as pessoas perguntam o que os comunistas têm a ver com isso.
Por que continuamos calados?
Minha língua está coçando, doida para uma conversa metalinguística: que tal uma conversa sobre a conversa? Sobre a ausência de conversa, melhor dizendo.
- Por que as pessoas não conversam? – perguntei-lhes, no meu ensaio mental.
Mas há um obstáculo, aquela barreira imaginária, que, somada à coceira na língua, resulta no tamborilar de pés e mãos e numa inquietação incômoda em que vão para nossa balança moral, de um lado, o medo de te acharem maluca e inconveniente e, do outro, a busca do que é que haveria de tão mal num simples bláblá sobre bláblá. E, claro, dezenas e dezenas de ensaios mentais, de formulações de respostas hipotéticas de seu interlocutor, de devos ou nãodevos, ufa!, que, no fundo, usamos só para adiar a tomada de decisão:
- Por que as pessoas não conversam?
E isso lá precisa de ensaio?!
Essa profundíssima questão filosófica se torna profundissíssima quando começamos a pensar nas possibilidades: conversar ou não conversar, a leveza ou o peso! Dois caminhos antagônicos e exclusivos que seguem a lógica de toda escolha: escolhendo uma possibilidade, aniquilam-se imediatamente todas as outras. Isso me assusta, a você não?, pois a mim sim. Coisa sartreana. Não se sabe qual é a melhor delas, façam suas apostas! Saberíamos se pudéssemos viver a vida de novo infinitas vezes, só para podermos escolher as possibilidades aniquiladas, retornando eternamente. Coisa nietzscheana. Profundissississímo!
Meus ensaios continuaram e o filme começou, terminou e eles não passaram de ensaios, principalmente porque Melancolia é tão tarja preta que a gente sai do cinema corcunda, cogitando tragédias e morrendo de letargia; quem quer conversar grogue? Você sim?, pois eu não. Talvez sim se o assunto for amor, sobre o qual tenho muitos minutos para falar, mesmo que já tivesse tido horas. Ou nomes de cores de esmalte, que é um assunto que não aparece todo o dia. Ou se alguém me fizer a pergunta que não quer calar, para eu responder que as pessoas não o fazem porque são babacas. Inclusive eu.

domingo, 7 de agosto de 2011

Sítio

- Não marquem nada que nesse domingo vai ter sítio.
E era dia de sítio. De novo. Sítio era o lugar onde se reunía a parentada materna italiana, com direito a gordinhos de bochecha rosada, boca suja de macarronada com almôndegas falando alto "MANDJÁRE!". Sempre que se anunciava que tal dia ia ter Sítio, pai, filho e filha esboçavam as seguintes reações (sujeitas aos humores do momento): a irônica - Uhul! Maravilha! Já tava com saudade do padre! - e a revoltada - Puta merda, de novo?, e, num sussurro de cúmplice, além dos ouvidos da mãe, A gente já foi esse ano, não foi?.
- O nonno gosta de ver todo mundo reunido, ele fica feliz - e essa era a resolução final e irremediável.
Mas nesse domingo era um Sítio especial: era dia de festa da Madonna, a Nossa Senhora das Neves. Puta merda, a festa da Madonna. Nem era tão especial, porque tinha festa da Madonna todos os anos e em todos eles aconteciam as mesmas coisas.
Ao chegarmos, dessa vez, minha mãe já distribuiu entre os filhos e sobrinhos a tarefa de filmar a missa, a procissão e etecétera e tal; afinal, eram tempos de tecnologia e ela queria mandar as imagens pra Itália.
- Pega as fotos antigas e muda a data que eles vão saber direitinho o que acontece na festa da Madonna – muito bem observou o tio Marcos. Fiquei pensando nisso. Era verdade. Com exceção das cabeças agora algodoadas das pessoas e de um ou outro zio que tinha comprado a tal viagem sem volta de encontro à Nostra Signora della Neve, tudo igual. Quis saber do meu pai o que havia mudado.
- Tá vendo aquela goiabeira ali? Antes, ela era pequenininha.
A graça do Sítio era falar mal e rir do Sítio. Era um lugar bacana até, espaço grande, cheio de grama, árvores, um campinho de futebol, um salão para dançar, uma fazendinha com porcos e galinhas escondida depois da plantação de alface e o maior orgulho, a igrejinha da tradicional missa. Houve tempos de submissão em que nossas mães arrastavam todos os primos para assistir à missa e até levar o pão e as uvinhas para o altar (a gente sempre roubava algumas) – teve aquele dia em que minha mãe anunciou pra todo mundo que eu tinha encarapitado uma coroa na cabeça da mãe do mininujesúis em cima de um caminhão para os católicos da vila e para tiazonas chorosas -, mas agora elas sabem que não tem jeito: a gente chega ao Sítio, senta à mesa do almoço, espera a missa acabar para poder comer até dizer chega e não há o que descole nossas bundas de lá. Mas, como eu disse, hoje tinha que filmar.
Meus primos, meu irmão e eu fomos revezando: ia um, filmava a missa, ia outro, filmava mais a missa, fui eu, filmei a missa. Chegou o momento da procissão.
- Olha lá: tão brigando pra ver quem vai carregar a porra da estátua! Caralho, não dá pra acreditar num negócio desse – e nós ríamos de tudo o que o tio Marcos, desbocado e querendo ir pra casa ver o jogo do Corinthians, dizia sobre o Sítio. De inconformado, reclamava em histeria, alternando em exaltações desacreditadas e deboche de sair lágrimas dos olhos de tanto gargalhar.
- E ainda querem botar o Marquinhos no catequismo. O cacete! Sábado de manhã, “Tá cansado, filhão?, não precisa ir, pó ficar”. Que que é isso! E elas sabem que a Igreja tem um baita dinheirão e fala aquelas bostas de “É mais fácil um rico entrar na agulha...”,“É mais fácil o camelo entrar no céu...”
- “É mais fácil um camelo entrar no buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, tio.
- É, o camelo no cu da agulha! E padre pedófilo! Mas lembra daquela vez que você coroou Nossa Senhora no caminhão?
- QUÁ QUÁ QUÁ!
- E você, só porque era a menorzinha, te vestiram de anjinho e te penduraram na merda de um cabo de aço!
- QUÁ QUÁ QUÁ!
(- ISSO É MENTIRA! – disse, com as faces febris.)
- E as veínhas ainda encostavam em você e faziam sinal da cruz, puta que pariu!
- QUÁ QUÁ QUÁ!
E assim todo mundo se divertia, até as mamães e titias fiéis, que davam sorrisinhos de canto de boca, embora tentassem disfarçar com balanços de cabeça em desapontamento.
Mas a procissão havia começado e não se podia perder uma só imagem. Filmaram-se a tal da estátua, as mulheres com vasos de flores na cabeça, o padre, o coral vestido de azul e a bandinha. Ai, a bandinha. A bandinha era composta de uns velhinhos fofos vestidos de soldados de chumbo, tocando, com instrumentos de metal e uns tambores, uma trilha sonora que variava entre o hino do São Paulo e a música tema da novela das oito. Ninguém aguentava mais a bandinha, acho que só eu pelo menos ainda achava graça. Havia também o salão de dança com um casal de cantores e apenas duas senhoras no meio do espaço dançando juntas; a filmadora estava comigo e eu achei aquilo tão baixo-astral que resolvi poupar os italianos de tais cenas.
- Há 21 anos, sua mãe e eu contratamos esses cantores pra animar nosso casamento. Sabe essa música que tá tocando agora? Eles tocaram lá.
Meu irmão e eu sabíamos que nem minha própria mãe teria saco para assistir a todos os vídeos. De fato, não havia novidades.
Pelo menos tinha comida. Macarrão, carnes, legumes de toda espécie, sorvetes, sucos, gelatinas, frutas e, no salão... tanananam!, o tão esperado, feito com toda fé e esmero pelos mais engajados, que sempre vinham no dia anterior ajudar nos preparativos, Bolo da Madonna. E seu inusitado fim começa agora.
Na véspera, eu tinha feito um mousse de limão para enfeitar a mesa de almoço do sítio. A pedido de minha mãe, fui buscá-lo na geladeira da casa. Era tão longe, mas a vontade de comer mousse era maior que a preguiça de trazê-lo. Passei por uma criança aflita que avisava a mãe:
- Mamãe, soltaram os porcos.
- Toda suja! – disse a mamãe, erguendo a criança pelo braço e sacudindo a grama colada em seu bumbum.
Fui buscar o mousse. Entrei na casa, fui até a cozinha, abri a geladeira e peguei a caixa, cheia de moussinhos lindinhos e verdes, chapiscados de tirinhas de casca de limão.
Quando saí da casa, uma palavra: caos.
Ninguém leva criança a sério.
Só tinha porco. Nunca vi tanto porco na minha vida. Ainda bem que eu fui pegar o mousse. Os coitados dos suínos estavam mais apavorados que qualquer um, e todos corriam de um lado pro outro, fosse porco ou fosse gente. Tinha uma porca gigante, ela devia estar prenha, porque as tetas tavam que tavam!, que era seguida de outros três porquinhos famintos. Mas não eram só eles, não, o resto da família-porca tinha sido chamado pra comilança. Os homens da família-gente, depois de um momento de falta de reação, tiveram de fazer alguma coisa.
- Encurrala os bicho!
Foram fechando o cerco ao redor do maior grupo (havia alguns outros espalhados pelo campinho e devia ter na igreja também, porque vi o padre saindo de lá com uma pressa peculiar). Os pobre dos bicho foram ficando assustados de arfar e dilatar pupila, coitados!, e sua rota de fuga incluía o ambiente de almoço. Os danados foram derrubando cadeiras sem medo do amanhã, subiram nas mesas devorando nossas macarronadas com almôndegas, atropelando criança com bumbum sujo de grama, até que os homens resolveram investir. Era uma média de 3 homem/porco. No caso dos porquinhos, 2 lhes pareceram suficientes. Mas que mente brilhante vai imaginar que porco é bicho esperto? Conseguiram expulsar de seus lombos gordos e rosados toda criatura que ousava tentar dominá-los como toureiro. Dava para acreditar? O meu mousse quase que foi abaixo, principalmente quando vi que a nova rota dos porcos era o salão. “Menos mal, só tem os cantores e as senhoras lá”, você pode pensar. Errado.
- O BOLO!
Debandou-se a parentada atrás dos porcos. A macarronada com almôndegas dá pra suportar, mas O Bolo da Madonna já é demais. Mas que cérebro exímio vai imaginar que porco é bicho rápido? Chegaram antes que as senhoras dançantes notassem. Foram com suas cabeçorras e cabeçorrinhas nos pés da mesa d’O Bolo da Madonna, que caiu direto em cima dos porquinhos famintos. E, como se esquecessem que havia uma multidão humana atrás deles, rodearam a piscina de chantili e glacê e fé e esmero que lambuzava o chão, que secou em poucas lambidelas suínas. Pra quem tá acostumado com lavagem, um bolo da madonna não cai nada mal, não é mesmo?
A gente toda estava desolada. Justo O Bolo e seus pedacinhos de papel comestível com foto da Madonna, que tanto haveriam de abençoar seus estômagos?
- Ainda tem mousse, pessoal.
O mousse acabou por consolar as pessoas, de quem todos nós gostávamos, apesar das brincadeiras. Nem fiz questão de comer minha pequena porção. Virei para a estátua dourada de Nossinhora, aquela por que tanto brigaram para carregar (mas em que, na hora da porcada, ninguém reparou que estava largada em cima do formigueiro), e quis saber por que a mocinha havia deixado isso acontecer. Ela disse que porco também era filho de deus e, quando a estátua de Nossinhora fala, a gente não refuta.
Só sei que, no fim das contas, escondidinho, no banco de trás do carro, meu irmão mostrou que o tio Marcos tinha muito bem filmado toda a confusão.
- Hoje, não foi só a goiabeira que mudou.
Acho que minha mãe não vai se importar de mudar a data das fotos antigas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Coda

Escuta o lá do oboísta pra afinar o violino. Já brilha o olho do menino! Esperamos começar. O elenco já está pronto, agora é só abrir o pano (e, pra sair tudo no plano, pode até improvisar). Os atos foram se passando; que grande alma preveria que tanta dose de geometria seria em corpo obra de arte? Vê os primeiros bailarinos: em nervosismo de cochia, o holofote os desafia a levar-nos a loucura. Com ar de quem se exibe, entram pra fazer a coda. Ele pula e gira em roda, ela faz os 32! E, como a última impressão é a que fica, fecha tudo com um sorriso bem aberto (grita por dentro "Tudo certo!") numa quarta bem bonita.

A plateia berra bravos e quem lhes dera ter mil flores, pois não há quem não morra de amores por cada um que fez a noite.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pé 41

As roupas numerosas da moça de 33 anos e pé 41 iam pro lixo uma a uma, naquele escarcéu debochado típico dos apresentadores do reality show. A moçona alta e grande e pé 41 usou roupa a vida inteira, mas, sabe-se lá como, não sabia se vestir. (Devia ser porque odiava aquele treco que segura as tetas embaixo da roupa e não deixa acender o farol.) Ria alto com voz grave de contralto, exibindo sorrisão alegre e ouvindo que malha marca as gordurinhas, listras horizontais engordam, que ai meu deus que saia horrorosa é essa e que era da altura da apresentadora, mas que esta não calçava 41, não, muito obrigada.
Depois da consultoria de moda, ganhou um cartãozinho vermelho cheio de dim dim pra gastar num montão de roupa bonita. Bacana, sorte a dela. Arrumou cabelo, passou maquiagem.
Largou o sorrisão alegre e mudou pra sorrisão de diva. Os apresentadores perguntaram como a linda se sentia. Renovada! Como assim? Outra pessoa, agora: bonita, feminina, segura, muito mais mulher; agora sou uma mulher.
Tadinha! Só aos 33?
O que não fazem um banho de roupa cara, uns cabelos falsos no cocoruto, a cara rebocada de Avon e um segurador de tetas, não?
(E eu, tão bobinha!, achando que, pra ser mulher, me bastava uma buceta!)


1 bj ao próximo dia 8.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Estado: Grave


1 bj às notas graves, à música Three Seed, do Silversun Pickups, inspiração da vez, e à própria banda, que sempre me emudece (quando não estou cantando junto, claro).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Eu, amor e eu

- Estou para histórias de amor.
- Ah, não me diga... que surpresa.
- Poxa, cara, você não aceita meu romantismo mesmo. Você e suas ironias...
- Ok, desculpe. Comece de novo.
- O quê?
- O nosso diálogo.
- Não.
- Vai logo!
- Hm, tudo bem... estou para histórias de amor.
- Ah, não me diga... Ei, calma, volta aqui!, estou brincando. Aceito seu romantismo, até porque tenho meu romantismo também.
- Você? Romantismo? Por favor, né.
- Claro que sim. Não é porque eu transformei o amor em ciência que...
- Ah, deixa suas teorias científico-amorosas um pouco pra lá. Quer saber a história de amor da vez ou não?
- Ok, ok...

"Ele e Ela eram melhores amigos. Ela era linda, inteligente, interessante e popular. Ele, bobo, infantil e odiado por todo o corpo docente do colégio."

- Ei, pode parar.
- Oi?
- Issó aí é história que toda menina de treze anos já criou na cabeça. Falta você falar que a garota se chama Hilary ou Lindsay.
- Ah... mas ainda pode ser uma história de amor. Toda história é uma história de amor.
- Ok, princesa Amnéris. Mas, a não ser que essa história de melhores amigos tenha algo bem inovador, ela acontece o tempo todo.
- Mas é amor do mesmo jeito!
- Claro que é, nunca disse que não era. Só quero que me conte uma história cujo final eu já não saiba... melhora isso aí!
- Agora você já me fez perder o fio da meada...
- Então, hm... vou te ajudar.

"Ele e Ela eram melhores amigos. Ela era bonita, divertida, polida e afável. Ele, feio, rústico, rude, de mal com a vida. Só ela o compreendia, o resto do mundo o queria bem longe. O irmão dela tinha ciúmes da relação deles, o que fez com que Ele o odiasse, e vice-versa."

- Ei, ei. Vai falar que eles moravam n'O Morro dos Ventos Uivantes também?
- Qual é, eu tava tentando ajudar. É mais interessante que melhores amigos num colégio.
- Mas o amor acaba sendo o mesmo nas duas situações; aliás, em qualquer situação.
- Já disse que só quero uma história mais interessante. E, sim, estou de acordo com o que disse. Amor: a mesma reação química, incomodando desde os primórdios...
- Lá vem você com sua ciência...
- Vai me dizer que amor não é reação química?!
- Vou dizer isso sim. Reação química pode até ser consequência do amor, mas ele em si é algo muito além de nossa vã compreensão, é uma força superior!
- Lá vem você com sua espiritualidade...
- Cara, não tem nada a ver com a minha espiritualidade. Já amou alguém?
- Já.
- Pois eu também. E digo que sinto algo ao meu redor quando amo. Algo externo me abraçando, nos abraçando. É demais! É como se houvesse uma terceira pessoa com a gente...
- Olha, vou te dizer que essa suruba aí é imaginação sua.
- Não é! Eu não entendo... como alguém que diz que já amou não sentiu isso?
- O que você está nomeando de força superior externa é algo que aconteceu dentro de você. Seu cérebro te fez sentir aquilo. Olha, eu não discordo que a sensação é sublime. É sim, e digo até que é a coisa mais sublime que eu já vivi. Mas é pura reação química. Amor é o nome do processo em que seu cérebro é estimulado por coisas boas, coisas que te agradam e fazem bem, e ele libera um monte de não-sei-o-quê na sua corrente sanguínea... e te dá esse barato aí.
- Argh, essa sua teoria tira toda a beleza do amor.
- Claro que não!
- Enfim, enfim! Vamos continuar nossa história. Minha vez, agora.

"Ele e Ela eram vizinhos, aqueles que só dizem bom-dia-boa-tarde. Ele era um cozinheiro independente, feliz com o que fazia e plenamente satisfeito com a própria vida rotineira; existia. Ela, uma cantora, uma artista!, curiosa, sedenta por conhecimento, pensante e, consequentemente, insatisfeita; queria sempre mais."

- Ei, agora tá melhorando. Posso continuar?
- Pode.

"Ela entrou no restaurante. Leu o cardápio, sem surpresa ou interesse. O garçom a aborda e Ela diz que quer uma surpresa. Ele não entende. Ela repete que quer ser supreendida. Ele diz que as surpresas não são com ele, que ele só traz as surpresas às mesas. Ela pede que mande tal pedido para o cozinheiro, e o cozinheiro que se vire! 'Não garanto nada, senhorita', ele diz. 'Ninguém garante.'"

- ...
- Continue!
- Só depois que você me der bons argumentos para dizer que minha teoria tira a beleza do amor.
- Ah, esquece isso e continua, vai.
- Não. Você me intrigou.
- Tá, tá... é meio óbvio, né? Você tá transformando o amor em ciência, em química!
- Mas tudo é química! VOCÊ é química. É composto de matéria orgânica que, no final, vai virar adubo.
- Ok, Tyler Durden. Não acho que sejamos apenas química. Não é possível que não haja uma alma dentro de nós, não tendo tudo isso que temos na nossa cabeça. Nosso pensamento é algo abrangente demais pra ser apenas químico, sem contar tudo o que somos capazes de sentir.
- Ai, ai... não entendo por que os seres humanos se sentem tãããão especiais só porque podem pensar, questionar. Quem falou que isso é vantagem? É só uma característica, tudo culpa da aleatoriedade evolutiva!
- Meu santo Deus, vai apelar pra Darwin?!
- Meu santo Darwin, vai apelar pra Deus?!
- Argh!
- É sério! Só pensamos (no sentido de questionar, ok?) porque nosso cérebro é capaz, tem uma configuração que o permite, e, sei lá, o dos pombos não. Assim como os tamanduás têm línguas grandes, e nós não. São só características diferentes, adquiridas com a evolução.
- Blá, blá, blá.
- Ih. Criacionista?
- Também não, né? Eu acredito na evolução, mas... poxa, pensar não é algo comparável a ter uma língua gigante. Por que nós pensamos?!
- Sei lá eu! O mundo é aleatório e sem sentido, ninguém nunca vai saber por que pensamos!
- Temos alma!
- Somos matéria orgânica!
- ARGH!
-...
-...
- Ok, ok, vamos manter a saúde da discussão. Você fica com sua alma e sua espiritualidade, e eu fico com o meu ateísmo e naturalismo. Voltemos à minha teoria.
- Não. Voltemos à história de amor.
- Nossa, é mesmo... já tinha esquecido. Continue você.
- Tá bem.

"Ele recebeu o pedido, mas não soube o que fazer; afinal, que louco pediria isso? Tão acostumado à sua rotina e sua mera existência, uma coisa daquelas lhe causou certo êxtase, ansiedade e um certo desespero. 'Quem pediu isso?', Ele pergunta ao garçom. 'Uma senhorita da mesa 17.' Ele foi conhecê-la, ver se tinha algum tipo de inspiração, uma luz mostrando um novo prato. Quando a vê na mesa, seu coração bate mais forte e..."

- Cansei dessa história.
- Eu também.
- Já prevejo o final dela: ela é uma doida que mostra um mundo novo pra ele e tal, tal, tal, ele se apaixona e etecétera, etecétera, etecétera.
- Vou tentar outra.

“Ele e Ela eram meros conhecidos, mas sempre se gostaram; aqueles segredos que a gente esconde até de nós mesmos. Tinham dez anos e estavam na quarta série.”

- Pô. Quarta série?
- Ah, cara. Tou tentando variar os temas e situações...
- Dez anos!
- E não existe amor aos dez anos?!
- Pode até existir... mas acho difícil.
- Pois eu acho que pode haver sim.
- Mas não vai sair muita coisa dessa história: paixonite de dez anos só desvira segredo quando ela já sumiu.
- Nossa, pior que é verdade. Bem, minha criatividade está um tanto morta... voltemos à sua teoria, então.
- Isso. Quero te convencer de que ela não tira a beleza do amor. Não é porque é química que perde a magia; passa a ser parte da natureza. Essa teoria o torna muito mais humano, porque, sendo um processo que produz no nosso cérebro essa sensação sublime, é algo realizado por nós! Nós produzimos amor! Não precisamos externar algo tão bonito só porque não é compreendido.
- Amor é um treco muito perfeito para ser produzido por seres tão falhos como os homens.
- Defina perfeito.
- Ah... é a solução pros problemas do mundo.
- Solução pros problemas do mundo é o respeito e uso da razão.
- Mundo melhor é feito com respeito; mundo perfeito é feito com amor.
- Bem... pensando assim... verdade, amor deve ser posto nessa lista. Enfim, o amor é meio cruel. É troca de interesses.
- Ah, nem venha com essa!
- É sim. Você não é capaz de amar alguém que não te faz bem. Você ama sua mãe porque ela te alimenta. Você ama um amigo porque ele te compreende, te acolhe, te faz rir, não sei. Você chora no enterro de alguém de que gosta porque ele fará falta pra você, porque VOCÊ vai sentir falta, VOCÊ sofrerá com isso, e não porque a pessoa morreu mesmo.
- Claaaaaro. Por isso que uma garota, quando um cara faz algum mal pra ela, continua o amando, né? Por isso que uma mãe continua amando o filho mesmo depois dele fazer um montão de cagadas...
- Bem... mas isso deve ser porque... não pensei nisso ainda. Mas viu só como o amor é falho, assim como os homens? Cheio de incoerências!
- É. Isso é verdade. Mas nhé, nhé, nhé. Definir amor você até conseguiu, mas entender como ele funciona... ninguém sabe por que ama, nem o que ama.
- No fim das contas, acho que não é possível entender como o amor funciona. E, se for possível, acho que nem vale a pena pensar nisso...
- Amar é a eterna inocência, e a única inocência é não pensar.
- Ok, Alberto Caeiro.
- Eu? Você que é todo "ai o mundo não tem sentido!"...
- Ora! Agora vai me dizer que tem?!
- Ah, deve ter...
- Tem nada. Quero dizer, algumas coisas podem até ter, mas, se não têm, não é o apocalipse.
- Tudo tem sentido. Se não tem, um dia vai ter. Seja através da ciência ou da espiritualidade.
- Discordo. O homem busca tanto o sentido das coisas! Não suporta não ver lógica em algo que já fica doido! Deixe as coisas não terem sentido em paz, oras bolas. É nessa que encontram respostas tipo Deus, Chico Xavier... alma...
- Teoria das supercordas...
- Claro. Cientistas também são homens que querem que as coisas façam sentido.
- É chato ser ser humano, né? Somos meio doentes.
- Também acho um saco, mas confesso que às vezes até gosto, e que alguns da minha raça valem o sacrifício.
- O mais triste de ser homem é a nossa incapacidade de amar quem nos faz mal. Queria amar gente ruim também, mas não consigo.
- O que sente por gente ruim?
- Sei lá. Sinto nada. Tô nem aí pra elas.
- Bem, se isso serve de consolo, você só pode amar quem te faz bem, mas também não odeia mortalmente quem te faz mal.
- É... talvez. E a história?
- Que história?
- A história de amor, poxa.
- Oh é mesmo! Eu tenho uma boa história!
- Ok, então, sua vez.

"Ele era ele, Ela era ela. Ele e Ela não se conheciam. Veio a Vida, aleatória como ela só, e montou a história deles, de um jeito bem melhor que essas nossas tentativas. Talvez eles se conhecessem com o desenrolar dela, talvez não. Fim."

- Me parece muito bom. Tirando esse papo de aleatório...
- E como é que vai acontecer, então?
- Destino? Intervenção divina?
- Ih, lá vem...
- E quem é que vai saber? Eu é que não sei. Bom. Eu me declaro Incapaz de Criar uma Boa História de Amor.
- Eu também.
- Enfim, está ficando tarde e eu preciso ir pra casa.
- Eu ficarei mais um pouco. Nos vemos de novo, acredito.
- Quando?
- Não sei. Quando for necessário; ou mesmo quando não for.
- Claro. Até a próxima discussão!
- Será uma prazer. Até mais!


1, 2, 3, 1000 bjs àqueles que discutem amor.